Ansiedade social e a sensação de queda infinita

Ansiedade Social e sensação de queda infinita

Meu nome é Mel — um nome fictício que escolhi para preservar minha identidade. Mas a história que conto aqui é real, profundamente real.

No meu primeiro dia de aula no prézinho — como a gente chamava nos anos 90 — eu tinha apenas seis anos. Lembro que fui para a escola com tanto medo, tanto medo, que até hoje, quando recordo, ainda sinto o mesmo vazio no peito. Era como se algo em mim caísse sem parar, uma queda infinita dentro de um espaço que ninguém mais parecia ver.

Enquanto outras crianças corriam, riam e soltavam das mãos de suas mães com alegria, eu me agarrava à minha. Eu não queria soltar. Tinha medo das professoras, da diretora, dos colegas. Tudo, absolutamente tudo, me provocava um medo paralisante.

Lembro das cores daquele tempo — ou melhor, da ausência delas. Mesmo nos dias ensolarados, havia uma tristeza que me tomava inteira. Eu percebia que existia uma alegria vibrando lá fora, nas vozes das crianças, no brilho do sol, mas eu não conseguia alcançá-la. Era como se o mundo estivesse vivo e colorido ao meu redor, e eu vivesse atrás de um vidro, assistindo tudo sem conseguir participar.

A escola não tinha muro, apenas uma cerca vazada. Dava para ver as casas ao redor. Eu olhava aquelas mulheres estendendo roupas no varal, sentia o cheiro dos amaciantes no ar, e aquilo me fazia doer por dentro. Eu queria estar em alguma daquelas casas. Queria estar na minha casa.
Era o único lugar onde eu me sentia segura.
A escola, ao contrário, era um território de ameaça — cheia de olhares, barulhos, expectativas.

Quando a professora pedia que cada criança respondesse uma pergunta, eu sabia a resposta, mas não conseguia dizer uma palavra. Era como se algo dentro de mim travasse completamente. Eu era inteligente, muito observadora, mas o medo era mais forte que a vontade de ser vista.

Essa era a minha infância com ansiedade social, mesmo antes que eu soubesse dar um nome a isso.
A sensação constante de estar caindo — sem chão, sem controle, sem voz. Uma queda que ninguém via, mas que me acompanhava todos os dias.

Com o tempo, aprendi que essa “queda infinita” era a forma como o meu corpo sentia o medo de existir no olhar dos outros. E, talvez, quem vive com ansiedade social saiba exatamente o que é isso: o corpo presente, mas a alma tentando encontrar um lugar seguro para pousar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *