Quando o corpo reage antes da razão: por que algumas pessoas entram em pânico durante uma emergência?

Quando o corpo reage antes da razão: por que algumas pessoas entram em pânico durante uma emergência?

Uma reflexão sobre o que acontece no cérebro, no corpo e nas emoções quando nos deparamos com situações inesperadas.

Algumas pessoas conseguem manter a calma em situações difíceis. Outras sentem que travam, ficam confusas ou entram em pânico. Basta uma emergência, uma notícia inesperada ou um acontecimento que desperte medo para que o organismo reaja de formas muito diferentes. Mas por que isso acontece? Será que algumas pessoas simplesmente são mais fortes do que outras?

Durante muito tempo acreditou-se que a capacidade de lidar com situações de estresse estava relacionada apenas à personalidade. Hoje sabemos que a resposta é muito mais complexa. O cérebro humano foi desenvolvido para nos proteger de ameaças e, quando percebe algum tipo de perigo, coloca em funcionamento uma série de mecanismos automáticos de sobrevivência.

Quando isso acontece, o coração acelera, a respiração muda e os músculos ficam mais tensos. A atenção passa a se concentrar quase exclusivamente naquilo que parece representar uma ameaça. Em muitos casos, essa reação acontece antes mesmo que a pessoa tenha tempo de analisar racionalmente o que está ocorrendo.

É justamente por isso que algumas pessoas relatam a sensação de ter “travado” diante de uma emergência. Elas não escolheram ficar paralisadas. O organismo simplesmente entrou em um modo automático de proteção. Compreender esse funcionamento ajuda a reduzir julgamentos e a enxergar essas reações com mais humanidade.

O cérebro não espera pela razão

Segundo Stephen Porges, criador da Teoria Polivagal, nosso sistema nervoso está constantemente avaliando o ambiente em busca de sinais de segurança ou perigo. Grande parte desse processo acontece de forma inconsciente. Antes mesmo que percebamos o que está acontecendo, o cérebro já iniciou uma análise sobre o nível de ameaça presente na situação.

Quando o organismo identifica perigo, diferentes respostas podem surgir. Algumas pessoas ficam agitadas e tentam resolver tudo rapidamente. Outras sentem vontade de se afastar da situação. Há também aquelas que experimentam uma sensação de congelamento, como se não conseguissem pensar ou agir com clareza.

Essas respostas não são sinais de fraqueza. Elas fazem parte de mecanismos biológicos que ajudaram a espécie humana a sobreviver ao longo da evolução. O problema é que, em algumas situações, essas mesmas estratégias podem dificultar a tomada de decisões e aumentar o sofrimento emocional.

Quando o corpo assume o controle

O psiquiatra Bessel van der Kolk, um dos maiores estudiosos do trauma, explica que situações de estresse intenso podem afetar temporariamente nossa capacidade de raciocínio. Em momentos de forte ativação emocional, áreas do cérebro responsáveis pelo pensamento lógico e pela organização das informações podem funcionar de forma menos eficiente.

Isso ajuda a entender por que pessoas inteligentes, experientes e preparadas também podem apresentar dificuldades quando enfrentam situações inesperadas. Não se trata de falta de conhecimento. Muitas vezes, o corpo está reagindo tão intensamente que o acesso ao raciocínio fica temporariamente prejudicado.

Talvez por isso tantas pessoas descrevam experiências em que sabiam exatamente o que fazer, mas tiveram dificuldade para agir naquele momento. O conhecimento continuava presente. O desafio era conseguir acessá-lo enquanto o organismo estava mobilizado pela sensação de ameaça.

Por que algumas situações nos afetam mais do que outras?

Nem sempre reagimos apenas ao que está acontecendo diante de nós. Segundo Gabor Maté, nossas experiências anteriores influenciam profundamente a forma como interpretamos determinadas situações. Cada pessoa carrega uma história única, construída por vivências, relacionamentos, perdas, medos e aprendizados.

Por esse motivo, duas pessoas podem passar pelo mesmo acontecimento e ter reações completamente diferentes. O que para alguém representa apenas um contratempo, para outra pessoa pode despertar sentimentos muito mais intensos. Isso não significa que uma esteja certa e a outra errada. Significa apenas que cada ser humano percebe o mundo através da própria história.

Compreender esse aspecto pode nos ajudar a desenvolver mais empatia. Nem sempre conhecemos as experiências que moldaram a forma como alguém reage diante do estresse, do medo ou da incerteza.

É possível aprender a se regular?

A boa notícia é que o sistema nervoso também possui uma grande capacidade de adaptação. Embora não possamos impedir que emoções difíceis apareçam, podemos desenvolver recursos para lidar melhor com elas quando surgem.

Peter Levine, pesquisador do trauma e da regulação emocional, destaca a importância de voltar a atenção para o corpo. Perceber a respiração, sentir os pés apoiados no chão e observar o ambiente ao redor são estratégias simples que ajudam o cérebro a recuperar a sensação de segurança.

Essas práticas não eliminam o medo nem fazem os problemas desaparecerem. No entanto, podem ajudar a reduzir a intensidade da ativação emocional, permitindo que a pessoa recupere gradualmente a capacidade de pensar com mais clareza e agir de forma mais consciente.

Resiliência não significa ausência de medo

Muitas pessoas acreditam que indivíduos resilientes são aqueles que não sentem medo, ansiedade ou insegurança. Tal Ben-Shahar propõe uma visão diferente. Para ele, resiliência não significa eliminar emoções difíceis. Significa aprender a conviver com elas sem permitir que dominem completamente nossas ações.

O medo faz parte da experiência humana. A ansiedade faz parte da experiência humana. A insegurança também faz parte da experiência humana. O objetivo não é se tornar imune a essas emoções, mas desenvolver recursos para atravessá-las de forma mais saudável.

Talvez a verdadeira força emocional não esteja em nunca se abalar, mas em conseguir seguir adiante mesmo quando as emoções estão presentes. Essa é uma habilidade que pode ser desenvolvida ao longo da vida e que beneficia não apenas situações de emergência, mas também os desafios do dia a dia.

Considerações finais

Quando alguém entra em pânico durante uma emergência, é comum que as pessoas ao redor interpretem essa reação como falta de preparo, excesso de sensibilidade ou incapacidade de lidar com pressão. No entanto, a realidade costuma ser muito mais complexa. Existe um cérebro tentando proteger o organismo, um corpo reagindo à ameaça e uma história de vida influenciando a forma como aquela situação é percebida.

Compreender esse funcionamento não elimina as dificuldades da vida, mas pode nos ajudar a olhar para nós mesmos e para os outros com mais compreensão. Afinal, antes de qualquer reação existe um ser humano tentando lidar, da melhor forma possível, com aquilo que está sentindo.


Deise Azevedo
Psicóloga | CRP 08/17934

Referências

Porges, S. W. A Teoria Polivagal.

Van der Kolk, B. O Corpo Guarda as Marcas.

Maté, G. Quando o Corpo Diz Não.

Levine, P. Waking the Tiger: Healing Trauma.

Ben-Shahar, T. A Busca da Felicidade.

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