Antes da emergência: como fortalecer a saúde emocional para lidar melhor com situações difíceis

Antes da emergência: como fortalecer a saúde emocional para lidar melhor com situações difíceis"

Quando pensamos em uma emergência, normalmente imaginamos o momento em que algo acontece. Pensamos em uma queda, um acidente, uma notícia inesperada ou qualquer situação que exija uma resposta rápida. É natural acreditar que a capacidade de lidar com esses momentos depende principalmente do conhecimento técnico ou da experiência acumulada ao longo do tempo. No entanto, existe outro fator que costuma receber menos atenção: o estado emocional em que a pessoa já se encontrava antes de a situação acontecer.

Muitas vezes, a diferença entre entrar em desespero e conseguir agir com clareza não está apenas na gravidade do acontecimento. Ela também está relacionada à quantidade de recursos emocionais disponíveis naquele momento. Quando alguém vive constantemente cansado, sobrecarregado e funcionando no limite, qualquer situação inesperada tende a ter um impacto muito maior sobre o organismo.

O corpo humano foi desenvolvido para lidar com períodos de estresse. Em situações de perigo, ele mobiliza energia, aumenta o estado de alerta e prepara a pessoa para agir rapidamente. O problema não é o estresse em si. O problema surge quando o estado de alerta deixa de ser temporário e passa a fazer parte da rotina diária, sem que exista tempo suficiente para recuperação.

Segundo Stephen Porges, criador da Teoria Polivagal, nosso sistema nervoso precisa experimentar sensações de segurança para funcionar de forma equilibrada. Quando permanecemos por longos períodos em estado de vigilância, o organismo começa a perder flexibilidade. Ficamos mais irritados, mais cansados, mais impulsivos e com menos capacidade de lidar com situações inesperadas.

Talvez possamos pensar na saúde emocional da mesma forma que pensamos em uma reserva financeira. Muitas pessoas compreendem a importância de guardar recursos para enfrentar momentos difíceis, mas raramente refletem sobre a necessidade de construir uma reserva de bem-estar. No entanto, imprevistos emocionais também acontecem, e enfrentá-los exige recursos internos que precisam ser cultivados ao longo do tempo.

Essa reserva emocional não é formada por grandes acontecimentos. Na maioria das vezes, ela é construída por experiências simples que ajudam o sistema nervoso a recuperar o equilíbrio. Momentos de descanso, conversas significativas, atividades prazerosas, contato com pessoas de confiança e pequenas pausas durante a rotina funcionam como formas de abastecimento emocional. Embora pareçam detalhes, eles ajudam o organismo a recuperar energia para lidar com desafios futuros.

Tal Ben-Shahar costuma afirmar que o bem-estar não deve ser visto como um prêmio reservado para depois que todas as obrigações forem concluídas. Muitas pessoas acreditam que primeiro precisam resolver todos os problemas para então cuidar de si mesmas. Na prática, porém, acontece exatamente o contrário. Quanto mais negligenciamos nossas necessidades emocionais, menor se torna nossa capacidade de enfrentar as demandas da vida cotidiana.

Outro aspecto importante é compreender que a regulação emocional não acontece apenas através dos pensamentos. Peter Levine, conhecido por seus estudos sobre trauma, destaca que o corpo desempenha um papel fundamental nesse processo. Não basta dizer a si mesmo que está tudo bem se o organismo continua funcionando como se estivesse diante de uma ameaça constante.

Pequenas atitudes podem ajudar a interromper esse ciclo de tensão. Respirar de forma mais lenta, perceber os pés apoiados no chão, prestar atenção ao ambiente ao redor e permitir momentos genuínos de desaceleração são estratégias simples que ajudam o cérebro a reconhecer sinais de segurança. Quando repetidas ao longo do tempo, essas práticas fortalecem a capacidade de recuperação emocional.

Existe uma ideia muito interessante na neurociência: as habilidades que mais precisamos durante as crises são desenvolvidas antes de elas acontecerem. Ninguém aprende a nadar durante um naufrágio. Da mesma forma, a capacidade de manter a calma em situações difíceis costuma ser construída nos períodos de maior estabilidade. É nesses momentos que treinamos o organismo para acessar recursos que serão importantes quando surgirem desafios.

Isso não significa que pessoas emocionalmente preparadas nunca sentirão medo, ansiedade ou insegurança. Significa apenas que elas possuem mais ferramentas para atravessar essas emoções sem serem completamente dominadas por elas. A preparação emocional não elimina o sofrimento, mas aumenta a capacidade de enfrentá-lo com mais equilíbrio e clareza.

Existe também uma crença bastante comum de que cuidar de si mesmo é um ato egoísta. Entretanto, a experiência mostra que pessoas profundamente esgotadas costumam ter mais dificuldade para manter a atenção, a paciência, a empatia e a capacidade de tomar decisões. Com o tempo, o desgaste emocional afeta não apenas quem o vivencia, mas também a qualidade das relações e das responsabilidades que essa pessoa sustenta.

Talvez por isso seja importante fazer uma pergunta simples de tempos em tempos: como está minha reserva de bem-estar hoje? A resposta pode oferecer informações valiosas sobre o quanto estamos preparados para enfrentar os inevitáveis desafios da vida. Afinal, a preparação emocional para as situações difíceis não começa quando a emergência aparece. Ela começa muito antes, nas escolhas diárias que ajudam o corpo e a mente a encontrar momentos de segurança, recuperação e equilíbrio.


Deise Azevedo
Psicóloga | CRP 08/17934

Referências

Porges, S. W. A Teoria Polivagal.

Levine, P. Waking the Tiger: Healing Trauma.

Maté, G. Quando o Corpo Diz Não.

Ben-Shahar, T. A Busca da Felicidade.

Van der Kolk, B. O Corpo Guarda as Marcas.

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