Quando o Idoso com Alzheimer Diz que Está com Dor: O Que Ele Está Tentando Comunicar?

Quando o Idoso com Alzheimer Diz que Está com Dor: O Que Ele Está Tentando Comunicar?

Nem toda dor no Alzheimer começa no corpo

Uma das situações mais desafiadoras no cuidado de pessoas com Alzheimer acontece quando o idoso passa a reclamar constantemente de dor. Em alguns casos, a queixa é acompanhada por exames que identificam claramente sua origem. Em outros, porém, os resultados não explicam completamente o sofrimento relatado. É nesse momento que surgem dúvidas, inseguranças e, infelizmente, interpretações equivocadas.

Não é raro ouvir familiares ou até profissionais afirmarem que a pessoa está exagerando, confundindo sensações ou simplesmente repetindo algo que ouviu anteriormente. Entretanto, essa interpretação pode fazer com que sinais importantes sejam ignorados. A experiência clínica e os estudos sobre demência mostram que, mesmo quando a origem da dor não é imediatamente evidente, ela continua sendo uma experiência real para quem a sente.

O primeiro passo para compreender essa questão é abandonar a ideia de que toda dor precisa corresponder exatamente a uma lesão identificável. No Alzheimer, a dor pode envolver componentes físicos, emocionais, ambientais e relacionais que se misturam de forma complexa.

O Alzheimer afeta a linguagem, mas não elimina o sofrimento

Um dos grandes equívocos no cuidado às demências é imaginar que, à medida que a doença avança, as emoções desaparecem junto com as memórias. A realidade é justamente o contrário. Embora a capacidade de organizar pensamentos e expressar sentimentos seja progressivamente comprometida, a experiência emocional permanece ativa durante grande parte da evolução da doença.

A pessoa continua sentindo medo, insegurança, tristeza, frustração, saudade e necessidade de conexão humana. O problema é que ela perde, gradualmente, a capacidade de traduzir essas experiências em palavras. Aquilo que antes poderia ser expresso através de uma conversa passa a surgir através de comportamentos, reações emocionais ou queixas aparentemente desconectadas.

Por essa razão, quando um idoso com Alzheimer diz repetidamente que está com dor, a pergunta não deveria ser apenas “onde dói?”. Muitas vezes, a pergunta mais importante é: “o que essa pessoa está tentando comunicar através dessa queixa?”.

O comportamento se torna uma forma de linguagem

À medida que a comunicação verbal se torna mais limitada, o comportamento passa a exercer uma função cada vez mais importante. Aquilo que não consegue ser organizado em palavras frequentemente emerge através de expressões faciais, alterações de humor, agitação, resistência aos cuidados ou reclamações constantes de desconforto.

Muitos profissionais experientes em geriatria afirmam que o comportamento é a linguagem da demência. Essa frase não significa que todo comportamento tenha uma causa emocional, mas lembra que toda manifestação merece ser investigada. Quando uma pessoa perde a capacidade de explicar claramente o que sente, ela continua tentando comunicar suas necessidades da forma que consegue.

Em alguns casos, a dor pode estar relacionada a uma condição física não diagnosticada. Em outros, pode refletir medo, solidão, confusão mental ou sofrimento emocional. Frequentemente, vários desses fatores coexistem.

A dor pode ser medo

Imagine uma pessoa que acorda diariamente sem compreender exatamente onde está. Ela reconhece parcialmente o ambiente, mas não consegue organizar suas memórias recentes. Pessoas entram e saem do quarto. Rotinas mudam. Horários deixam de fazer sentido. A sensação de segurança, que durante décadas foi construída a partir da previsibilidade da vida cotidiana, começa a desaparecer.

Essa experiência pode produzir um estado permanente de alerta. O idoso talvez não consiga dizer “estou assustado”. Talvez nem compreenda conscientemente esse sentimento. Mas pode dizer “não estou bem”, “estou sofrendo”, “estou com dor”. Em determinadas situações, a queixa dolorosa funciona como a tradução possível de uma experiência emocional que já não consegue ser identificada com clareza.

Isso não significa que a dor seja imaginária. Significa apenas que o sofrimento pode estar utilizando diferentes caminhos para se expressar.

A dor pode ser solidão

Poucas experiências são tão impactantes no envelhecimento quanto a perda progressiva dos vínculos significativos. Amigos morrem, familiares mudam de cidade, rotinas são interrompidas e, em alguns casos, ocorre a institucionalização. Para pessoas com Alzheimer, essas mudanças podem ser ainda mais difíceis de compreender.

É comum observar idosos que apresentam aumento das queixas justamente em momentos de menor interação social. Alguns reclamam mais após o horário de visitas. Outros demonstram maior sofrimento nos períodos em que permanecem sozinhos. Nesses casos, a dor pode estar relacionada a uma necessidade profunda de conexão humana.

A neurociência tem demonstrado que isolamento social e sofrimento emocional produzem efeitos reais sobre o cérebro. Portanto, não é surpreendente que a solidão também possa influenciar a percepção dolorosa.

A dor pode ser uma memória emocional

Mesmo quando a memória episódica está gravemente comprometida, memórias emocionais frequentemente permanecem preservadas por mais tempo. Isso significa que a pessoa pode esquecer acontecimentos específicos, mas continuar reagindo emocionalmente a determinadas situações.

Uma idosa pode ficar angustiada todos os dias no mesmo horário sem conseguir explicar por quê. Um residente pode apresentar sofrimento recorrente em determinados ambientes. Outro pode reclamar constantemente de dor após determinadas interações. Nem sempre a origem é consciente. Às vezes, estamos observando respostas emocionais associadas a experiências passadas que continuam produzindo impacto.

Por isso, compreender a biografia do idoso é tão importante quanto conhecer seu diagnóstico.

Como descobrir o que a dor está tentando comunicar?

Essa talvez seja a pergunta mais importante para os profissionais que trabalham com Alzheimer. A resposta não costuma surgir de uma única conversa nem de uma observação isolada. Ela é construída lentamente através da combinação entre escuta, observação e conhecimento da história de vida daquela pessoa.

O profissional atento observa padrões. Em que momentos a dor aparece? O que acontece antes da queixa? O que acontece depois? A intensidade muda na presença de familiares? Melhora durante atividades prazerosas? Surge em situações específicas de cuidado? A observação sistemática frequentemente revela informações que a linguagem verbal já não consegue fornecer.

Além disso, conversar com familiares permite compreender aspectos fundamentais da personalidade, da história e dos valores daquele indivíduo. Muitas vezes, aquilo que parece um sintoma isolado começa a fazer sentido quando é inserido dentro da trajetória de vida da pessoa.

O erro de procurar uma única explicação

Uma armadilha comum consiste em tentar descobrir se a dor é física ou emocional. Na realidade, essa divisão raramente corresponde à experiência humana. Uma pessoa pode sentir dor física e sofrimento emocional ao mesmo tempo. Pode existir artrite, mas também pode existir luto. Pode existir uma doença crônica, mas também pode existir medo.

A experiência dolorosa é construída pela interação entre múltiplos fatores biológicos, psicológicos e sociais. Por isso, o objetivo do cuidado não deve ser escolher uma única explicação, mas compreender quais elementos estão contribuindo para aquele sofrimento específico.

Quanto mais complexa é a pessoa, mais complexa costuma ser sua dor.

Considerações finais

Talvez uma das maiores lições do cuidado em demências seja compreender que nem toda comunicação acontece através das palavras. Quando um idoso com Alzheimer diz repetidamente que está com dor, o profissional precisa ouvir mais do que a frase pronunciada. Precisa observar o contexto, a história, os comportamentos e as emoções que podem estar por trás daquela manifestação.

Nem sempre será possível descobrir exatamente o que a dor significa. Porém, é possível reconhecer que ela existe e merece ser acolhida. Muitas vezes, o cuidado começa justamente quando deixamos de perguntar se a dor é real e passamos a perguntar o que ela está tentando comunicar.

Autora: Deise Azevedo – Psicóloga | CRP 08/17934

Referências

KITWOOD, Tom. Dementia Reconsidered: The Person Comes First. Buckingham: Open University Press, 1997.

BRODATY, Henry; DONKIN, Marika. Family caregivers of people with dementia. Dialogues in Clinical Neuroscience, v. 11, n. 2, p. 217-228, 2009.

ALZHEIMER’S ASSOCIATION. Dementia Care Practice Recommendations. Chicago, 2024.

VAN DER KOLK, Bessel. O Corpo Guarda as Marcas. Rio de Janeiro: Alta Books, 2020.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global Action Plan on the Public Health Response to Dementia 2017–2025. Geneva: WHO, 2017.

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