Por que algumas dores não aparecem nos exames?
Uma das situações mais desafiadoras para profissionais da saúde, cuidadores e familiares acontece quando um idoso relata sofrimento constante, mas os exames não conseguem explicar completamente aquilo que ele sente. Nesses momentos, é comum ouvir frases como: “não encontramos nada”, “está tudo normal” ou “isso deve ser psicológico”. Embora geralmente sejam ditas com boa intenção, essas expressões podem transmitir uma mensagem perigosa: a de que a dor não é real.
Entretanto, as descobertas mais recentes da neurociência mostram justamente o contrário. O sofrimento emocional não é uma experiência imaginária nem um problema restrito aos pensamentos. Ele produz alterações mensuráveis no cérebro, influencia hormônios, modifica padrões fisiológicos e pode se manifestar através de sintomas físicos legítimos. É nesse contexto que o trabalho de Bessel van der Kolk se tornou uma referência mundial.
Quem é Bessel van der Kolk?
Bessel van der Kolk é psiquiatra, pesquisador e uma das maiores autoridades internacionais no estudo do trauma psicológico. Durante décadas, dedicou-se a compreender como experiências emocionalmente dolorosas afetam o funcionamento do cérebro e do corpo. Seu trabalho ganhou projeção mundial com a publicação do livro “O Corpo Guarda as Marcas”, obra considerada um marco na compreensão da relação entre sofrimento emocional, saúde física e funcionamento cerebral.
Embora suas pesquisas tenham se concentrado principalmente em trauma psicológico, suas conclusões ajudam a compreender fenômenos observados diariamente no cuidado ao idoso. Afinal, envelhecer também envolve experiências potencialmente traumáticas: perdas sucessivas, lutos, doenças, redução da autonomia, institucionalização, afastamento familiar e a convivência constante com a própria finitude. Essas experiências deixam marcas que nem sempre aparecem em exames de imagem, mas frequentemente aparecem no corpo.
O sofrimento emocional não desaparece simplesmente porque não é falado
Uma das contribuições mais importantes de Van der Kolk foi demonstrar que experiências emocionalmente difíceis não desaparecem apenas porque a pessoa tenta ignorá-las ou porque não consegue expressá-las verbalmente. Muitas vezes, aquilo que não encontra palavras encontra outras formas de manifestação. O corpo passa a carregar parte daquilo que a mente não conseguiu processar completamente.
Essa perspectiva é particularmente importante no cuidado ao idoso. Muitos pertencem a gerações que aprenderam desde cedo a esconder emoções, evitar demonstrações de vulnerabilidade e suportar silenciosamente suas dores. Para essas pessoas, falar sobre tristeza, medo ou solidão nem sempre é algo natural. Consequentemente, o sofrimento pode surgir através de sintomas físicos, alterações comportamentais ou queixas recorrentes de dor.
Como o cérebro reage ao sofrimento prolongado
Segundo Van der Kolk, o cérebro humano foi desenvolvido para proteger a sobrevivência. Quando uma pessoa enfrenta situações de intenso sofrimento, determinadas regiões cerebrais entram em estado de alerta para identificar possíveis ameaças. O problema ocorre quando esse sistema permanece ativado por longos períodos, mesmo depois que o perigo já passou.
Nessas circunstâncias, o organismo continua funcionando como se precisasse se defender constantemente. O resultado pode ser um aumento da tensão muscular, alterações no sono, fadiga persistente, dificuldade de concentração, irritabilidade e amplificação da percepção dolorosa. Não se trata de imaginação. Trata-se de um sistema nervoso que permanece em estado de vigilância e que passa a interpretar diferentes estímulos como potencialmente ameaçadores.
O corpo fala aquilo que a pessoa não consegue dizer
No envelhecimento, essa compreensão ganha uma relevância ainda maior. Muitos idosos apresentam dificuldades para identificar e nomear aquilo que sentem emocionalmente. Outros acreditam que não devem incomodar familiares ou profissionais com suas preocupações. Em consequência, emoções complexas acabam sendo expressas de maneiras indiretas.
Uma dor persistente pode coexistir com um luto não elaborado. Uma queixa repetitiva pode carregar sentimentos de abandono. Uma piora repentina de sintomas pode surgir após mudanças significativas na rotina ou após a perda de uma relação importante. Isso não significa que toda dor tenha origem emocional, mas significa que a dimensão emocional jamais deve ser ignorada durante a avaliação clínica.
O que isso significa para pessoas com Alzheimer?
Quando falamos de Alzheimer e outras demências, o pensamento de Van der Kolk torna-se ainda mais relevante. Conforme a doença avança, a capacidade de organizar pensamentos, identificar emoções e expressar sentimentos vai diminuindo progressivamente. No entanto, a experiência emocional não desaparece. O indivíduo continua sentindo medo, insegurança, tristeza, frustração e necessidade de conexão humana.
O desafio é que essas emoções deixam de ser comunicadas de forma clara. Muitas vezes, o sofrimento passa a surgir através do comportamento. Agitação, agressividade, recusa aos cuidados, alterações do sono e queixas persistentes podem representar tentativas de comunicar algo que já não consegue ser colocado em palavras. O profissional atento compreende que o comportamento não é apenas um sintoma da doença; frequentemente é uma forma de linguagem.
A pergunta que transforma o cuidado
Tradicionalmente, diante de uma dor persistente, procura-se descobrir se ela é física ou psicológica. Entretanto, a perspectiva de Van der Kolk convida a uma pergunta diferente. Em vez de perguntar apenas “onde dói?”, talvez seja mais útil perguntar “o que essa dor está tentando comunicar?”.
Essa mudança de olhar transforma profundamente a prática clínica. O foco deixa de ser exclusivamente a eliminação do sintoma e passa a incluir a compreensão da experiência humana que existe por trás dele. Em muitos casos, a resposta não será simples nem imediata. Mas a própria investigação já produz acolhimento, validação e reconhecimento da história daquela pessoa.
Quando a escuta se torna uma intervenção terapêutica
Profissionais experientes em geriatria frequentemente observam algo interessante: existem situações em que uma conversa acolhedora produz mais alívio do que muitas intervenções inicialmente tentadas. Isso acontece porque o sofrimento humano não é composto apenas por fatores biológicos. Necessidades emocionais, relacionais e existenciais também participam da experiência da dor.
Escutar não significa abandonar a investigação médica. Pelo contrário. Significa ampliar a compreensão do sofrimento. Significa reconhecer que o ser humano não é apenas um corpo que adoece, mas também uma história que sente, lembra, perde, ama e sofre. Quando o profissional consegue integrar essas dimensões, o cuidado torna-se mais completo e mais humano.
Considerações finais
O legado de Bessel van der Kolk vai muito além do estudo do trauma psicológico. Suas pesquisas ajudaram a demonstrar que corpo e mente não funcionam de maneira separada. O sofrimento emocional modifica o cérebro, influencia o organismo e pode produzir manifestações físicas legítimas. No contexto do envelhecimento e das demências, essa compreensão é fundamental para evitar interpretações simplistas e abordagens que invalidem a experiência do idoso.
Quando um idoso relata dor, especialmente na ausência de explicações clínicas suficientes, talvez a pergunta mais importante não seja se essa dor existe. A dor existe porque está sendo sentida. O verdadeiro desafio consiste em compreender quais experiências, emoções, perdas ou necessidades podem estar participando dessa vivência. É nesse ponto que a técnica encontra a sensibilidade e que o cuidado se transforma em encontro humano.
Autora: Deise Azevedo – Psicóloga | CRP 08/17934
Referências
VAN DER KOLK, Bessel. O Corpo Guarda as Marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Rio de Janeiro: Alta Books, 2020.
VAN DER KOLK, B. A.; MCFARLANE, A. C.; WEISAETH, L. Traumatic Stress: The Effects of Overwhelming Experience on Mind, Body, and Society. New York: Guilford Press, 1996.
SIEGEL, Daniel J. O Poder da Presença. São Paulo: nVersos, 2018.
DAMASIO, António. O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Decade of Healthy Ageing 2021–2030. Geneva: WHO, 2021.